Dignidade encarcerada

Dignidade encarcerada
Um Olhar Sobre a Invisibilização das internas de mata escura
Interna da Penitenciária Lemos de Brito relata que é inocente quatro anos após ser condenada.
Por: Iann Jeliel e Caio Pimentel
A matéria abaixo não preservou os nomes verdadeiros dos envolvidos.
A primeira versão
No dia 09/11/2018, a polícia localizou e prendeu Marta de 49 anos, suspeita por ter sido a mentora do homicídio da própria mãe Célia, de 78 anos, assassinada pelo genro Pedro, de 25 anos por várias facadas de uma peixeira, após ser pega de surpresa.
Na época, Pedro relatou que a Marta dava ideias para matar sua mãe e juntos planejaram a morte da senhora durante três meses com o objetivo de obter três imóveis registrados em seu nome. Além de ter efetuado o crime, Pedro furtou 3 mil reais da conta da ex-sogra por ter acesso (através de Marta) das senhas das contas bancárias.
Marta foi localizada em um imóvel perto da praia no bairro de Vila Canária, em Salvador, e foi levada para a delegacia para prestar esclarecimento. Durante o depoimento, admitiu ter dado a ideia do homicídio, mas dizia que se sentia arrependida. Marta foi sentenciada a 20 anos de cadeia na penitenciária feminina de Salvador no Complexo Lemos de Brito. Atualmente está cumprindo o quarto ano de sentença e por conta de bom comportamento, terá a possibilidade de entrar no regime semi-aberto até o final de 2023.
o reconto
A detenta em nova entrevista contou uma nova versão, afirmando desta vez que foi inocente. Em seu relato, Marta conta que se encontrou com Pedro em um Hotel pouco depois dele ter assassinado Célia. Pedro, naquele momento, pediu para que ela fosse ao SAC pegar alguns documentos para ele e depois retornasse ao Hotel, contudo, Marta passou em casa antes para pegar roupas e se deparou com a perversa cena.
Ao descobrir a morte de Dona Célia, Marta ficou em estado de choque, paralisada e decidiu apenas sair andando sem rumo pela praia até ser escoltada pela polícia tempos depois. Marta diz que Pedro armava um cenário para que saísse como culpada, mas que, coincidentemente acabou sendo pego pela polícia no mesmo dia.
Após a condenação, Marta visitou Pedro apenas uma vez depois disso, afirmando que queria olhar em seus olhos e perguntar porque tinha feito aquilo. Sem dar detalhes da resposta do companheiro, Marta afirma que passou por um longo processo de terapia no primeiro ano de prisão para superar o trauma e desvencilhar qualquer sentimento que ainda nutria pelo antigo namorado.
O contato constante com os filhos, Lucas de 39 anos e Roberta de 29 anos, além do apoio virtuoso do respectivo advogado responsável pelo caso, foram fundamentais para que Marta aprendesse a conviver com a dor e pudesse seguir em frente, especialmente porque o resto da família cessou comunicações quando se tornou presidiária.
Marta afirma com veemência que assim que sair da cadeia, buscará todas as alternativas jurídicas possíveis para provar sua inocência. Só depois de ser absolvida, seguirá para um recomeço morando em alguma fazenda do interior do Estado, longe do contato com quaisquer outros familiares que lhe abandonaram no período mais difícil de sua vida.
Mesmo superando emocionalmente o macro da situação, Marta ainda coloca o “Dia das Mães" como uma data que lhe deixa muito machucada. Ao ponto de fazê-la se isolar do mundo nesse dia, evitando ter contato com outras presas que recebem visitas das mães para não ter gatilhos emocionais nos reencontros, ou mesmo assistir televisão, diante da quantidade de propagandas relacionadas que passam na data celebrada.
Marta finaliza dizendo estar muito arrependida do envolvimento com Pedro, alertando dos perigos de se envolver com pessoas erradas e conclui que sente extrema falta de sua mãe, pois, em sua perspectiva “a mãe é a pessoa mais importante na vida do indivíduo”.


Foto: Reprodução/Correio 24 horas
Foto: Reprodução/Correio 24 horas